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Microescolas e alternativas educacionais para o Brasil

Patricia Lobaccaro

01/12/2019 04h00

Todos sabem que o modelo de escola tradicional tem sentido o peso do tempo e não mais atende às necessidades dos alunos no desenvolvimento das competências necessárias para os dias de hoje.  Nossos alunos não estão aprendendo. Há um distanciamento entre a escola e a vida real. Muito tem se falado sobre a necessidade de personalizar a educação, de ressignificar o papel do professor, de investir em ferramentas de autoconhecimento e desenvolvimento de competências socioemocionais e de criar alternativas para esse modelo de educação atual. 

 Nos Estados Unidos um novo formato de escolas tem despertado interesse de pais, alunos e de investidores, as chamadas micro-schools, ou microescolas, que são escolas com modelo de educação alternativas que misturam faixas etárias diferentes na sala de aula, têm flexibilidade no currículo, são adaptáveis às realidades locais e oportunizam a experimentação de soluções de aprendizagem inovadoras. O conceito vem ganhando força e atraindo investimentos de grandes fundações como a Walton Family Foundation que  anunciou aporte de 15 milhões de dólares para financiar inovações no campo das microescolas. Não é somente nos EUA que as microescolas estão ganhando momentum, experiências similares também estão sendo implementadas com sucesso na China e na Índia.

Durante minhas quase duas décadas de envolvimento com financiamento de projetos educacionais no Brasil, tive a oportunidade de conhecer inúmeros modelos inovadores de educação. Um exemplo é a  Escola de Baixo do Pé de Manga, criada por Tião Rocha, uma escola sem salas de aula. Segundo Tião, educação se faz com bons educadores e o modelo escolar arcaico há décadas dá sinais de falência. "Não precisamos de sala, precisamos de gente. Não precisamos de prédio, precisamos de espaços de aprendizado. Não precisamos de livros, precisamos ter todos os instrumentos possíveis que levem a criança a aprender". No Mato Grosso do Sul, o Instituto de Pesquisa da Diversidade Intercultural (IPEDI) incubou uma série de iniciativas educacionais seguindo o modelo de comunidade educadora. O Barco de Letras, programa de alfabetização de ribeirinhos, com material didático desenvolvido de acordo com a realidade local, e o projeto Kalivono, que criou junto com professores de escolas indígenas um currículo bilíngue (português e língua terena), incorporando a cultura local no material didático. Modelos que surgem a partir dos saberes e culturas regionais e que integram a aprendizagem à realidade local são abundantes, mas o financiamento para iniciativas como essas ainda precisam ser equacionados.

Recentemente fui conhecer uma das unidades do Alicerce Educação, startup educacional com alto potencial de escalabilidade e oferece complementação escolar presencial de forma bastante similar ao modelo das microescolas. Além do reforço escolar nas disciplinas base, trabalha bastante o aspecto sócio emocional, além do desenvolvimento de planos de vida com os alunos mais velhos, que podem ser relacionados a empreendedorismo, acesso a universidade ou estágio. 

Ao invés do professor, tem-se o modelo de "líder", onde geralmente há um jovem recém-formado na universidade – com características socioeconômicas parecidas com as dos alunos – que atua como facilitador do processo de aprendizagem e tem autonomia na elaboração dos planos de aula. Os primeiros resultados do projeto são bastante promissores, não apenas do ponto de vista da evolução do conteúdo escolar, mas também da possibilidade de aumento de renda – principalmente para as mães que têm um local seguro para deixar os filhos e poder trabalhar.

O modelo de educação descentralizado das micro-escolas (com autonomia para o educador e currículo adaptado às características regionais) poderia ser uma alternativa educacional para o Brasil, especialmente em regiões remotas ou onde o poder público não chega. Nos últimos 15 anos, mais de 30 mil escolas rurais foram fechadas no país e em muitas comunidades jamais existiram escolas. 

Ficam aqui algumas reflexões: como desenvolver um modelo de filantropia capaz de incubar experiências educacionais de maneira robusta e capilarizada? Será que modelos baseados em mercado, como o Alicerce, conseguirão escalar para regiões remotas (respeitando a riqueza cultural regional, dentro de um modelo economicamente sustentável)? Seria viável criar um modelo de financiamento público para essas escolas alternativas? 

Metodologias educacionais eficazes e inovadoras não faltam. É preciso encontrar meios de disseminar soluções como essas para públicos mais amplos. 

Sobre a Autora

Patricia Lobaccaro construiu carreira no campo do investimento social, articulando redes e iniciativas para fortalecer projetos transformadores no Brasil. Foi presidente e CEO da BrazilFoundation de 2010 a 2019, mobilizando mais de 35 milhões de dólares em apoio a mais de 500 organizações da sociedade civil no Brasil. Atualmente Patricia atua como consultora no setor social e faz parte do conselho de instituições sem fins lucrativos. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e fez curso de gestão em non-profits em Harvard.

Sobre o Blog

A palavra filantropia tem origem grega e vem das expressões philos, que significa “amor”, e anthropos, que significa “ser humano”, ou seja, amor ao ser humano ou amor à humanidade. A expressão carrega em sua origem a intenção de ajudar ao próximo, “fazer o bem” e doar. Este blog é um convite para um cafezinho e um bate-papo sobre filantropia e impacto socioambiental. Tem como objetivo contar histórias de empreendedores sociais, filantropos e pessoas comuns impactando positivamente comunidades ao redor do Brasil e do mundo. E, por meio dessas histórias, inspirar mais pessoas a agirem por um mundo melhor.

Patricia Lobaccaro