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Como o investimento privado vem se destacando no combate ao coronavírus

ECOA

08/03/2020 04h00

Faz dois meses que os primeiros casos de coronavírus foram reportados na China, na cidade de Wuhan. Desde então, mais de 95.000 casos foram relatados em 85 países, inclusive no Brasil, e mais de 3.000 pessoas morreram.

Com o número de casos reportados dobrando a cada 5 dias, conter a contaminação e seus efeitos requer esforços de todos os setores, inclusive do setor privado. Será necessário equipar hospitais, investir em pesquisas que possam aprimorar diagnósticos e tratamentos e desenvolver vacinas. Governos, pelo menos em teoria, deveriam ter estrutura para lidar com questões de saúde como essa. Mas as burocracias tornam a velocidade de resposta mais lenta que o ideal. Então vale a pena fazer uma reflexão aqui sobre o importante papel da filantropia em casos de epidemias globais. Embora os recursos privados não tenham a escala do setor público, têm a agilidade de resposta que governos não têm. Como estamos falando literalmente nesse caso de salvar vidas, não podemos subestimar a importância de alinhamento de atuação das empresas, academia e sociedade civil complementando as ações dos órgãos do governo.

De acordo com a Candid, maior centro de inteligência e dados da filantropia mundial, mais de 1 bilhão de dólares de recursos privados foram doados em resposta à doença, bem mais do que o valor mobilizado em outras epidemias como o vírus ebola, ou em virtude de desastres naturais como o furacão Harvey ou os incêndios na Austrália.

A maioria dos recursos doados, 76% do total, vieram da própria China. Eu estudo a filantropia Chinesa há bastante tempo e nunca tinha visto uma mobilização de recursos privados dessa ordem antes. Embora o governo chinês tenha criado mecanismos de dedução fiscal para estimular doações em 2016, o país não tinha filantropia expressiva. De acordo com o World Giving Index, ranking mundial das doações, enquanto o Brasil ocupa a vergonhosa posição 122 entre 146 países, a China ocupa posição ainda pior, o 142º lugar. Portanto, essa expressiva mobilização de recursos, em um período relativamente curto, é praticamente um fato inédito na China.

O maior doador até agora foi a Tencent Holdings, maior portal de internet na China que contribuiu com mais de 200 milhões de dólares, incluindo recursos da empresa e de sua fundação corporativa. Em segundo lugar vem o grupo Alibaba, que já doou 144 milhões, além de 14 milhões doados por seu fundador Jack Ma. Empresas chinesas de tecnologia como Baidu, ByteDance, dona da rede social TikTok, também estão entre as 10 empresas que mais doaram. É interessante também notar também as corporações Chinesas, que além de estarem doando recursos financeiros, estão disponibilizando outros tipos de recursos tecnológicos e serviços, que vão desde mapas que georreferenciam os novos casos da doença, até educação online para crianças em idade escolar.

Nos EUA a maior contribuição vem da Fundação do Bill e Melinda Gates, que estão investindo 100 milhões de dólares, dos quais 60 milhões serão investidos para o desenvolvimento de uma vacina e o restante para diagnóstico e tratamento e proteger populações em situação de risco.

Universidades também têm um papel importante a cumprir. Harvard recebeu uma doação de 115 milhões de dólares para desenvolver, em conjunto com cientistas chineses, uma vacina e tratamentos antivirais que diminuam os sintomas, além de diagnósticos mais precisos. O MIT está simultaneamente captando recursos e lançando um prêmio para soluções e ideias que aprimorem a capacidade de resposta ao COVID-19 e outras doenças.

Epidemias como o coronavírus expõem muitas contradições. Não serão apenas os países com recursos e estrutura limitadas que sofrerão as consequências. Embora os EUA tenham alguns dos melhores hospitais do mundo, 28 milhões de norte-americanos não possuem planos de saúde. Muitas pessoas que vierem a contrair a doença e que teoricamente deveriam se isolar em quarentena, não tem condições econômicas para fazer isso. Epidemias também chegam para testar a resiliência de sistemas de saúde, economias, governos, políticos, empresas e da própria sociedade. Em um momento em que ninguém sabe prever o que vai acontecer, nem mesmo os especialistas, a única certeza é que todos os setores vão ter que somar esforços, alinhar propósitos, compartilhar informações e recursos. A  colaboração, como sempre, será imprescindível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Patricia Lobaccaro construiu carreira no campo do investimento social, articulando redes e iniciativas para fortalecer projetos transformadores no Brasil. Foi presidente e CEO da BrazilFoundation de 2010 a 2019, mobilizando mais de 35 milhões de dólares em apoio a mais de 500 organizações da sociedade civil no Brasil. Atualmente Patricia atua como consultora no setor social e faz parte do conselho de instituições sem fins lucrativos. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e fez curso de gestão em non-profits em Harvard.

Sobre o Blog

A palavra filantropia tem origem grega e vem das expressões philos, que significa “amor”, e anthropos, que significa “ser humano”, ou seja, amor ao ser humano ou amor à humanidade. A expressão carrega em sua origem a intenção de ajudar ao próximo, “fazer o bem” e doar. Este blog é um convite para um cafezinho e um bate-papo sobre filantropia e impacto socioambiental. Tem como objetivo contar histórias de empreendedores sociais, filantropos e pessoas comuns impactando positivamente comunidades ao redor do Brasil e do mundo. E, por meio dessas histórias, inspirar mais pessoas a agirem por um mundo melhor.

Patricia Lobaccaro